quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O preconceito é um conceito mal compreendido

Resolvi escrever este pequeno artigo depois que alguns internautas encaminharam mensagens a este blog demonstrando expresso desconhecimento do que é o PRECONCEITO. O mais interessante é que, em geral, as pessoas não se consideram preconceituosas, mesmo quando os seus discursos as contradizem.

Penso que, inicialmente, é importante saber o que é um CONCEITO para atingir o nosso propósito. Um conceito é uma construção do intelecto, uma abstração. Diz Aristóteles que é um ato intelectual que parte da observação dos casos particulares, dos quais “retiramos” o que é comum a todos, resultando numa noção geral. É a essência, a substância de um SER.

O conceito aristotélico corresponde à idéia platônica. É um universal. A diferença é que naquele ele é construído pelo homem a partir da observação dos seres concretos. Para Platão ele existe independente dos seres humanos, é eterno, e é intuído direto pelo pensamento, em razão de a alma o ter contemplado antes de se submeter aos limites de um determinado corpo terreno.

Seja como for, é fácil perceber que somente o homem é capaz de pensar por meio de conceitos. O nosso pensamento (e linguagem) é conceitual. Por isso somo capazes de construir realidades para além do aqui agora. Recuperamos o passado e projetamos o futuro. Daí a possibilidade de planejarmos o que ainda está para ocorrer.

Os conceitos, que são as construções mais simples de pensamento, correspondem às palavras, os nomes, os vocábulos, etc. Estes se combinam e formam as frases, as orações, os versos, as sentenças, os juízos, etc. A combinação destas, formam os períodos, os raciocínios, as estrofes, etc, que, por fim, se constituem em teorias.

Os juízos - que podem ser de valor, realidade ou gosto - são compostos a partir da combinação de conceitos, da qual se tenta utilizar alguns para esclarecer outros, alargando, assim, a compreensão. Vemos isso com bastante clareza quando estudamos, na disciplina Língua Portuguesa, os TERMOS DA ORAÇÃO. Um conceito é o substantivo, outro é o verbo e outro é o adjetivo. Ex: a casa é bonita.

Ao conceito casa (substantivo) é imputado o conceito “bonita” (adjetivo), ligados pelo conceito SER (verbo), formando uma oração que expressa a ocorrência de um determinado fenômeno, isto é, o fato de a casa ser bonita.

Os conceitos são, portanto, condições para a elaboração de pensamentos. Sem eles não apreenderíamos teoricamente a realidade. Mas essa apreensão pode se configurar num equívoco, quando combinamos conceitos que estão em desacordo com aquilo que eles anunciam, isto é, quando ampliamos o alcance de um conceito para além daquilo que ele comporta.

Esse erro de pensamento nem sempre é percebido porque os juízos gerais se adequam, pelo menos, a uma parcela da realidade, o que lhes confere certo sentido. Mas, como não comportam toda a realidade que anunciam, se o bem examinarmos, perceberemos a dissonância que eles possuem com os fenômenos por eles descritos. A rigor eles são juízos incorretos, decorrentes de generalizações mal feitas (conhecidos no campo das falácias como GENERALIZAÇÕES APRESSADAS).

São esses tipos de pensamentos (trabalhos intelectuais) que se consubstanciam em PRECONCEITOS. Eles são, sobretudo, fruto da crença dogmática em pensamentos mal elaborados.

Quando dizemos, por exemplo, OS HOMENS SÃO INFIÉIS, fazemos uma ampliação do alcance de certos conceitos de forma equivocada, posto que o conceito INFIEL não se conforma e satisfaz plenamente à definição do conceito HOMEM, visto existirem homens fies (em algum lugar do mundo, é claro, ou em alguma época passada). Bem como existem muitas (e "ponha" muitas nisso) mulheres que também são infiéis. Essa generalização, como vimos, é precária, por isso se constitui em um pensamento PRECONCEITUOSO.
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Na elaboração dos pensamentos, o verbo SER também é utilizado indevidamente quando o empregamos de forma absoluta, visto que alguém pode ser infiel num momento e não o ser em outro.

A inflexibilidade das idéias que formam as nossas crenças cotidianas, sem a devida crítica, institui essa visão equivocada do mundo que, de alguma forma, em sua superficialidade, fazem com que o ser humano se aferre a certas proposições como se fossem verdadeiras.

Dizer, por exemplo, que os ANÔNIMOS SÃO COVARDES, constitui uma assertiva preconceituosa, pois o conceito covarde não constitui um atributo necessário do conceito anônimo. Por isso ouso dizer que o PRECONCEITO, em sua essência, não passa de um conceito mal compreendido.
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Em tempo: Analisando a imagem acima, verificamos que o conceito CONFIÁVEL não está, necessariamente, contido como atributo do conceito ILETRADO. Assim são os preconceitos, sutis como os mais voláteis dos gases.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Adeus Ana JuliaJa vai tarde.

Qualquer cidadão que aceita participar da Administração Pública, o faz por julgar-se tecnicamente preparado para o exercício da função e por, de certa forma, comungar da ideologia política daquele que o convidou. No exato momento em que orientações ou comportamentos passam a ser divergentes administrativa e/ou politicamente, por ética e respeito, o agente público (ou político) deve pedir sua exoneração.

Os secretários ausentes, se descontentes estavam, deveriam ter pedido exoneração no momento oportuno. Não é correto "pularem do barco" no apagar das luzes do exercício do cargo que lhes foi conferido.

Os políticos ausentes, como não fazem parte do poder executivo, não foram nomeados pela governadora. Mas aqueles que pertencem ao mesmo partido da ex-chefa do executivo deveriam se recordar da campanha política, ocasião em que utilizaram a popularidade da estrela maior do PT para, nos diversos palanques instalados em todo Estado do Pará, alavancarem suas candidaturas.

Não votei na ex-governadora e não reconheci como válidos alguns de seus atos administrativos, mas, no momento de transmissão do cargo ao seu sucessor, devo reconhecê-la como uma mulher de fibra, de têmpera forte, com a coragem suficiente para enfrentar um palanque presumivelmente hostil (o que se confirmou com as vaias que lhe foram dirigidas) e como verdadeira democrata.

Os ausentes me levaram a conclusões lamentáveis. Provavelmente pela conduta somente agora externada explicitamente tenham ajudado a governadora a perder a disputa política. O egoísmo demonstrado pelos ausentes, jamais seria conjugado para o coletivo partidário. A sensibilidade que deve permear o ser humano ficou também ausente de seus corações ao permitirem a mulher, e sua governadora, enfrentar sozinha seu último ato como gestora do Estado. Na realidade eles não lutaram uma luta digna, pois, ao final não tiveram coragem de socorrer e apoiar os que feneceram no campo de batalha e, ostensivamente, se desagregaram. A derrota foi do PT, do governo Ana Júlia e dos seus secretários, mas, ao final, dentre todos, a única a manter a dignidade na derrota foi a governadora, os ausentes foram ratos covardes em navio que afunda, dentre eles, infelizmente, alguns fardados ou armados.

De tudo se tira aprendizado na vida, principalmente nos erros, os de escolhas são os mais doídos. Seus assessores, e "companheiros" de partido, se desnudaram somente no fim da luta. A ampulheta do tempo não para. Amanhã será outro dia...