A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.
Tristeza não tem fim
Felicidade sim...
(Felicidade – Tom Jobim e Vinícius de Moraes)
Sempre que começa um novo ano os meios de comunicação nos abarrotam com pesquisas de todo tipo. A estatística é algo que nos fascina. Todos sabem o que seria da Ciência Moderna se a realidade não pudesse ser compreendida em termos matemáticos. Por outro lado, o que seria de nós se não fosse a Ciência Moderna? Talvez ainda estivéssemos crendo que o sol gira em torno da terra em movimento circular, que os corpos caem porque o chão é o lugar natural dos seres pesados (onde o elemento terra prepondera) ou ainda vendo minotauros, por aí, em lugar de discos voadores.
Bem, mas o certo é que ninguém resiste a uma tabela ou gráfico que nos “revele” com precisão como as coisas acontecem. Numa dessas, li no jornal “O liberal” de 03 de janeiro deste ano, que “a casa própria é o sonho dos belenenses para 2010”. Em segundo lugar vem o carro, depois o emprego, eletro eletrônico, viagem, moto, aprovação no vestibular, eletrodoméstico, etc. A tabela chegou ao cúmulo de classificar os sonhos por faixa etária, classe econômica e sexo. Procurei a minha faixa etária e os sonhos correspondentes e logo fiquei frustrado. Nenhuma opção de sonho correspondia a minha. Como sou belenense e possuo a faculdade de sonhar, supuz que me enquadrara na famosa “margem de segurança”. Ufa, ainda bem que existe o percentual de erro!
Mas, apesar de tudo, não duvido que os bens materiais, mencionados na reportagem, possam causar grande satisfação e até ser o sustentáculo daquilo que chamamos de felicidade. O homem moderno é inexoravelmente individualista. A nossa felicidade não está condicionada – como na antiguidade - ao bem estar do conjunto da coletividade. Nos consideramos felizes, mesmo que a cidade "pegue fogo”, desde que as nossas necessidades individuais sejam satisfeitas. Não é sem razão que a casa, o carro, o emprego, etc. compõem o nosso imaginário. Isso conduziu a felicidade para o interior do sujeito. Ela se tornou um sentimento, algo subjetivo. Por isso, uns se julgam felizes com a aquisição de determinados bens; outros, de outros. A felicidade passou a corresponder aos sonhos e estes são produto do sonhador.
Não podemos, pois, estranhar que as coisas coletivas não nos apeteçam. As ocorrências gregárias nos causam infortúnio. Falamos do público como o espaço da corrupção, multas, violência, “casamento civil, impostos sobre a renda e missa de sétimo dia”. Eis a causa de os modernos não se identificarem com a vida pública.
Para os gregos antigos a felicidade estava no espaço objetivo, na seara política. O cidadão só se considerava feliz se a cidade como um todo, o fosse. A eudaimonia (felicidade) era a excelência no sentido do bom funcionamento das coisas da cidade. Os projetos individuais deveriam estar sintonizados com os coletivos, sem os quais o BEM, enquanto prosperidade, jamais poderia ser atingido.
Mas, não podemos transportar um conceito no tempo sem fazer algumas considerações de natureza histórica. A Grécia antiga era dividida em cidades-estado independentes e com características próprias. A língua e o culto em alguns deuses era o elemento comum. Não havia segurança no sentido da “política externa”. A invasão, submissão e destruição de cidades inteiras era um evento corriqueiro. Atenas, por exemplo, se conflitou com Esparta, depois ficou sob o poder macedônico e, em seguida, se prostrou ante o império romano. É fácil supor que, diante de perigos externos iminentes, o espírito coletivo se fortalecesse. Os povos antigos não tinham uma tranqüilidade civil que os autorizasse a pensar a felicidade consubstanciada em outro bem que não fosse a segurança da cidade.
Com o surgimento do Estado Moderno, liberalismo político e a consolidação do capitalismo o cenário interno e externo dos Estados-Nação se modificou. Karl Marx, filósofo alemão do séc XIX, percebeu a existência de classes sociais antagônicas no interior de uma mesma sociedade. Os conflitos que, predominantemente, ocorriam nas relações exteriores foram transportados para o interior, porém escamoteados por um instrumento que foi “descoberto” naquele século, como problema filosófico: a linguagem. O discurso ideológico seria capaz de dissimular o antagonismo existente na sociedade, apresentando-a, aos olhos dos incautos, como UNA e HARMÔNICA, ocultando a reificação do homem e a expropriação do produto do seu trabalho.
Não existindo, na visão comum, inimigos externos e internos a serem combatidos, posto que o monopólio da força e da violência foi transferido para o Estado – a lei do Talião caiu em desuso – o homem moderno se voltou para o seu interior, buscando naquilo que lhe agrada a felicidade. O individual, o pessoal e o privado passaram a ser o campo da realização humana. A felicidade foi transportada para o EU.
Não quero aqui dizer que possamos, hoje, resgatar integralmente o conceito de eudaimonia (felicidade) como os antigos o utilizaram, mas concebê-la como algo estritamente subjetivo possui as suas conseqüências. Ao desprezarmos a visão totalizadora da sociedade, ignorando que o bem pessoal está concatenado ao bem coletivo, contribuímos, mesmo que omissivamente, para o caos na vida com os outros homens e com a natureza. Basta considerarmos fenômenos como a violência urbana e as alterações climáticas para percebermos que elas se recrudesceram a partir do momento em que abandonamos a visão holística do cosmos, submetendo a natureza aos interesses egoístas do homem moderno. A noção de felicidade, como prosperidade do grupo, foi abandonada pelo bem estar do indivíduo. Essa postura propiciou alterações no ambiente natural e social capaz de, cedo ou tarde, cobrar o seu preço, afinal, a criatura sempre se volta contra o criador.
Essa mudança social, política e econômica da sociedade provocou uma alteração psicológica no sujeito. Alguém pode estudar em colégio particular, possuir plano de saúde privado e morar em condomínio fechado, e não cultivar o menor ressentimento ao ver os seus concidadãos estudando em precárias escolas, morrendo à míngua na porta dos hospitais públicos, além de habitar em áreas sem saneamento e com elevados índices de criminalidade. Ignoramos solenemente o que disse o filósofo grego Aristóteles:“Uma andorinha não faz verão”. Agimos com a leniência dos que conseguem alguns benefícios pessoais e se esquecem que a vida não pode ser pensada e vivida fora do contexto maior da existência, sob pena de atentarmos contra nós mesmos.
De qualquer forma, apesar de tudo, não vejo razão para ignorar os rituais da nossa sociedade “civilizada”, logo desejo a todos os leitores (inclusive anônimos) do blog do Wolgrand um FELIZ ANO NOVO! Que em 2010 possamos cuidar melhor da nossa verdadeira casa: a cidade (apesar dos esforços contrários do Duciomar e Ana Júlia Carepa).
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
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