“E o diabo, levando-o a um alto monte,
mostrou-lhe num momento de tempo todos
os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: - Dar-
te-ei todo este poder e a sua glória, porque
a mim me foi entregue e dou-o a quem quero;
portanto se me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo-lhe, disse: - Vai-te Sa-
tanás; porque está escrito: adorarás o Senhor
teu Deus e só a Ele servirás.”
(Lucas, cap. V, versículos 5-8.)
Difunde-se abundantemente em nossa sociedade que vivemos num Estado Democrático de Direito. Democrático porque o poder provém do povo. E de Direito, porque as leis jurídicas regulam a nossa relação com os nossos concidadãos. Se isso é verdade por que receamos em dizer o que pensamos no local de trabalho, na escola e até no ambiente familiar?
Talvez por isso o poeta Vinícius de Moraes tenha dito, no poema “O dia da criação”, que “os bares estão repletos de homens vazios”. Vazios, talvez, mas o bar é o lugar onde ainda se diz o que se pensa. Ali as pessoas são elas mesmas - com uma ou duas na cabeça - mas elas mesmas. Pode-se xingar o mau patrão, falar mal da mulher lamurienta ou do marido desatento, criticar o professor chato e preciosista, e, com uma dose de ousadia, até se declarar insatisfeito com a opção sexual adotada e outras coisas mais.
Mas por que, em qualquer outro lugar (até na internet), tememos ser nós mesmos, afinal o livre pensar não é um princípio constitucional? Por que então baixamos a cabeça e falamos baixinho como se vivêssemos em pleno regime de exceção?
A questão que parece merecer a nossa atenção não é se somos ou não livres, mas por que não nos interessamos em lutar pela liberdade? Por que a liberdade não é um valor para nós? Que tipo de pedagogia é essa que nos faz temer a liberdade? O mais intrigante é que esse medo não é prerrogativa das pessoas com baixa formação acadêmica ou de níveis sociais e econômicos menos abastados. Esse é um fenômeno que parece atingir a todos indistintamente.
Sem reconhecer essa realidade, as nossas escolas, hipocritamente, alardeiam sem qualquer pudor que objetivam formar cidadãos críticos e autônomos, capazes de se lançarem ao desconhecido em busca de novas experiências, vivendo para além das condições dadas cotidianamente. Ao revés, utilizam metodologia capaz unicamente de produzir seres mediocremente rotineiros; habilitados (e sem demonstrar qualquer inquietação) em aceitar a realidade dada, inserindo-se obedientemente num fluxo de acontecimentos que parece estar além das suas capacidades de deliberação. São “educados” para a obediência. Pior, são “educados” para GOSTAR da obediência e reconhecer nela o único caminho capaz de propiciar uma vida tranqüila e feliz.
Qualquer outra hipótese é sinônimo de transgressão, desordem, desarmonia, etc., logo suscetível dos justos e diversos castigos, necessários para o estabelecimento da ordem na vida gregária. Por isso, desde cedo nos ensinam a temer a ocorrência do que nos causa a dor e a desejar aquilo que nos afasta dela. Trocamos, assim, “voluntariamente” a possibilidade de experimentar a vida, de fazer com ela experiências de pensamento e ação, pela promessa de um conforto decorrente da posse de outros bens.
Institui-se assim uma pedagogia voltada para o cultivo do medo, ante o exercício da liberdade. Esta é menos importante que um “prato de comida”. E desde os verdes anos (sem cultivar o gosto, nem reconhecer a importância da liberdade), sem dificuldade, alienamos a nossa capacidade de produzir vivências, de elaborar novas relações e experiências com os acontecimentos. Trocamos o medo do desconhecido pela promessa de aquisição de bens conhecidos. De fato, como a liberdade pode ser um valor maior que um “prato de comida”, se nos ensinam que ela não tem valor prático? Ela não mata a fome, não sacia as pulsões sexuais, não nos abriga das intempéries. E ainda a experiência nos mostra que o seu exercício pode nos levar a perder os poucos bens que, a duras penas, conquistamos. Ensinaram-nos a conceber a liberdade como uma mera abstração, inferior às coisas concretas, com seus cheiros, cores e sabores. Parece que só os artistas e filósofos a amam e a inserem em seus “mundos paralelos”. No mundo “real”, não convém educar para o que não tem um sentido pragmático. A escola precisa nos colocar ante a realidade concreta e tangível para nos transformar em verdadeiros cidadãos.
Não sendo a liberdade um valor que mereça a atenção do nosso processo educacional, nós a trocamos por qualquer “prato de comida” e a alienamos com vistas a segurança e o conforto. Mas, será essa troca legítima e digna de nós seres humanos? A liberdade possui ou não algum valor?
Se a repulsa a liberdade não é congênita, mas ensinada, como creio, há de se supor que ela decorra da relação ensino-aprendizagem, que é a característica básica do processo educacional em qualquer sociedade humana. Logo, podemos pensá-la a partir dos dois pólos que a compõe, o professor e o aluno. Partindo da infância do homem individual e coletivo (quando a razão ainda não presidia as ações humanas) encontraremos um procedimento comum, do ponto de vista pedagógico, encetado pelo “professor”: procura-se conter a conduta do “aluno”, desenvolvendo-lhe certos sentimentos ante a realidade. O “professor” cria um discurso capaz de garantir que o “aluno” faça aquilo que por ele é querido. Assim, introduz-se o MEDO como instrumento pedagógico. O bicho-papão e todos os mitos cosmogônicos nisto se assemelham. Explicam os fenômenos e ao mesmo tempo condicionam o homem, segundo a vontade de quem detém o poder político. Em outras palavras, ENSINA-SE PARA CONTROLAR. Política e educação, desde os primórdios, sempre andaram juntas.
Com o passar do tempo, o homem e a humanidade entram na adolescência e os louros da razão principiam aparecer. Neste momento, há o reconhecimento – agora racional - da existência de limitações (sistema de regras) que impõe deveres e obrigações. No plano individual, a moral cumpre o seu papel limitador; no coletivo, surge o Estado Moderno, com suas regras jurídicas, para propiciar o bem e afastar o mal. Tem-se aí o amparo psicológico necessário para consolidar essa transferência de poder e a consolidação do medo – agora apreendido racionalmente – por meio dos diversos sistemas disciplinares. A família, Escola, local de trabalho e até a igreja cumprem esse papel limitador, que outrora foi das babás e dos poetas rapsodos e aeodos. Tudo funciona como numa sociedade de escambo, capitaneado por um regime de trocas. Aliena-se algo para se conseguir outro bem desejado. Mas o que a família, escola, sociedade civil e a igreja querem de nós em troca de tantos bens necessários a uma boa vida, segura e confortável? Não seria a OBEDIÊNCIA esse bem, isto é, a alienação da liberdade?
Mas como pode ser a liberdade se ela, como foi dito alhures, não custa um “prato de comida”? Se é esse o bem que os detentores do poder querem, chegamos a uma dúbia conclusão. A liberdade é um bem valioso para uns e não o é para outros. Quem a quer, não seriam os poderosos? Quem a despreza, não seriam os dominados? Se assim é, me parece inconteste que a liberdade tem a sua importância recuperada pelos inquilinos do poder, os quais a vêem como instrumento necessário para o exercício da sua própria liberdade, no valimento da vontade própria. A pedagogia do medo não seria patrocinada por aqueles que reconhecem o valor da liberdade e a escondem dos demais para poderem gozar desse benfazejo bem, sozinhos? De outra forma, o que justificaria a liberdade ser um valor primordial para os dominantes e não o ser para os dominados?
Retomando a questão que nos conduziu a essas indagações. Se vale a pena (e é legitima) a troca da liberdade pelo conforto e segurança. Concluo, considerando a validade das premissas anteriormente postas, que essa troca é FALSA, ILUSÓRIA e totalmente DESVANTAJOSA a quem da liberdade abdica, porque não há segurança num mundo em que os acontecimentos estão sob o controle de outrem (aqueles para quem a liberdade é um valor), pois a qualquer momento estes podem mudar o curso da vida, SEM PEDIR PERMISSÃO ALGUMA, porque a eles foi dado o poder, e podem usá-lo ao sabor de suas conveniências.
Logo, depreende-se que a pedagogia do medo não é mais que uma falsa pedagogia ou contra-pedagogia, porque ela presta um desserviço ao homem, salvo àqueles que consomem os seus frutos.
Por isso o filósofo e o artista não são corajosos – como o senso comum crê. Eles apenas desmistificam os instrumentos pedagógicos que estão a serviço do poder, percebendo que o medo não tem um fundamento fático, sendo um mero artifício criado para que apenas alguns possam usufruir do principal e mais valioso bem que existe para o ser humano: a liberdade.
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quarta-feira, 8 de julho de 2009
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